Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




E de repente, a liberdade!

por Jose Luis da Mota, em 25.04.19


Eu tinha 27 anos, quase 28.
Foi um dia frenético e avassalador. Não sabia de havia de rir ou de chorar. As emoções estavam todas á flor da pele. Foi, talvez, o dia mais feliz da minha vida.
Onde é que eu estava no 25 de Abril?
A dormir.
Por acaso tinha ouvido a canção “E depois do adeus” do Paulo de Carvalho, mas nem sequer me passou pela cabeça, que estava ali o início de um dos dias mais belos do nosso país
Eram para aí umas 7 da manhã, quando o telefone toca, trrim trrimmm, e eu admirado, quem será a esta hora da manhã? Era a minha tia Conceição, a avisar: Zé, não vás para a rua, á uma revolta contra o governo e anda tudo aso tiros. Exagero claro. Toda a gente lá em casa acordou, ligámos o rádio, e ouvíamos comunicado atrás de comunicado do MFA, a pedir às pessoas para se manterem calmas e não irem para a rua.
No RCP (rádio clube português) ocupado pelos militares, eram transmitidos os comunicados, quase de 15 em 15 minutos.
"Aqui posto de comando das Forças Armadas.
Conforme tem sido transmitido, as Forças Armadas desencadearam, na madrugada de hoje, uma série de acções com vista á libertação do País do regime que há longo tempo o domina”
Vesti-me num ápice, enfiei uma navalha no bolso (ainda a tenho) e saí porta fora. Aproxime-me do Carmo, mas toda a zona estava rodeada de polícias, GNR, nem vê-los. Não me deixaram passar. Mas não perderam pela demora. O povo começou a afluir de todos os lados, começaram, a aparecer carros de combate do exército e camionetas cheias de soldados. Em menos de nada, todos eramos um só. Povo e Soldados. Foi memorável.
Ainda ponderei ir trabalhar mas, que se lixe, quero lá saber.
Eu corria de um lado para o outro, da rua da Misericórdia para o Camões, do Camões para a baixa e Terreiro do Paço, eu e milhares de outras pessoas, umas vezes não nos deixavam passar, andava tudo num frenesim.
de súbito aparecem, não sei bem de onde, pessoas com braçadas de cravos vermelhos e toca a colocálos nos canos das espingardas dos soldados.
Finalmente consegui chegar ao Carmo, empoleirado num tanque de guerra com mais umas dezenas de pessoas. Marcelo Caetano estava refugiado no quartel da GNR. Ouvem-se tiros contra a fachada do quartel. O jornalista Francisco Sousa Tavares em cima de uma guarita da guarda, de megafone na mão gritava eufórico para a população. Salgueiro Maia comandava as operações de rendição dos fascistas.
Ali bem perto, na sede da Pide, nas ruas António Maria Cardoso e Victor Cordon, os pides desorientados tentavam destruir documentos e fugiam em todas as direcções possíveis, a maioria eram apanhados e presos. Muitos foram revistados logo ali nas ruas, obrigavam-osa a descer as calças até aos tornozelos ficando em cuecas, pernas afastadas e mãos espalmadas na parede. Na travessa do Guarda Mor (hoje rua do Grémio lusitano), a dois passos da minha casa, no quartel da Legião acontecia o mesmo com os fascistas legionários.
Os dias seguintes foram de euforia completa por todo o país. Havia manifs em todo o lado, eu ia a quase todas sem querer saber se eram deste ou daquele partidp ou sindicatos, queria era participar. Houve uma altura que entrei numa e de braço direito levantado e ounho fechado, gritava as palavras de ordem. Uma moça chega-se a mim e diz-me que não era com a direita mas sim com a esquerda que devia protestar. Depois percebi que eram militantes do MRPP. Pirei-me dali para fora, já tinha ouvido que eram esquerdistas fanáticos. Dois anos mais tarde eu e alguns camaradas tivemos uma pequena guerra com eles na Calçada do Combro, onde era a sede deles. Falarei sobre isso um dia destes.
Hoje tenho 72 anos, quase 73
25 de Abril de 1974
Era de madrugada
A Liberdade chegava
E já pela alvorada
O povo cantava
25 de Abril sempre

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:49


E desapareceu no meio da multidão

por Jose Luis da Mota, em 14.04.19


Eu tinha ido até Carnide a ver se descobria a Livraria Solidária, não descobri, (esta minha mania de não perguntar nada a ninguém), e regressei ao metro para casa O comboio ia mais ou menos cheio com a malta do Benfica que ia para a Luz ver o jogo com o Vitória de Setúbal, mas estava um lugar vago e sentei-me. Pouco depois, no Colégio Militar a malta da bola saiu e entraram algumas pessoas.
Uma senhora, dos seus 30 anos, sentou-se à minha frente.
Vestida com elegância, trazia dois sacos de papel de uma conhecida marca de roupas, qou pousou à frente dos seus joelhos.
Olhei a cara jovem e fiquei fascinado.
Não era uma beleza de morrer, mas era linda.
O rosto, de uma cor moreno suave, como de alguém que vive no campo, irradiava felicidade.
Mexia levemente os lábios como quem falava consigo própria e com um sorriso que me fez estremecer de emoção.
Os olhos cintilavam como estrelas numa noite de luar.
Parecia estar noutro mundo, pois que o seu olhar nada via em seu redor e certamente a sua imaginação estava em algum lugar ou em alguém especial.
Naqueles breves momentos da viagem de metro, senti uma empatia com a senhora e senti-me feliz com a felicidade dela.
Ela saiu no Marquês, entre alas de adeptos do Benfica que seguiam para o estádio da Luz e desapareceu na multidão.
Que seja realmente feliz!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:11


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2014
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2013
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2012
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2011
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2010
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2009
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D